Newsletter Semestral - Outubro 2017

Decorridos seis meses da minha entrada na Euronext, a reflexão mais imediata é que tive o privilégio de chegar num bom momento. Um bom momento para a Euronext, um bom momento para a economia, um bom momento para os mercados financeiros.

Março marcou a inauguração do Centro Tecnológico da Euronext no Porto, concluindo com grande rigor e sucesso o projecto de transferência de actividades tecnológicas da Irlanda para Portugal, que passa assim a assegurar esta parte vital da actividade do Grupo. Também a nível global, a Euronext encontra-se em fase de crescimento, salientando-se o reforço da nossa oferta de Corporate Services, pela aquisição de duas pequenas empresas inovadoras (Company Webcast e iBabs) e a  expansão da actividade para o mercado de Foreign Exchange, através da aquisição da Fastmatch. O lançamento do TechHub  reforça a promoção do mercado de capitais como alternativa de capitalização para as start-ups europeias, com a mobilização de colaboradores em novos mercados:  Alemanha, Suíça, Itália e Espanha. Internamente, já está em funcionamento real o primeiro módulo do novo sistema de negociação, o Optiq (Market Data). Este é um marco na renovação da nossa plataforma central, que irá assegurar um nível de funcionalidades e desempenho dos mais avançados do mercado.

Os resultados e perspectivas futuras da Euronext têm sido, de resto, reconhecidos pelos investidores, com reflexo numa substancial valorização das ações –,  36% desde o início do ano (166% desde o IPO).

Esta evolução surge enquadrada num clima económico positivo, com indicadores que confirmam uma recuperação gradual da actividade económica global, em particular na zona Euro. Também em Portugal as perspectivas económicas têm vindo a melhorar substancialmente, consolidando a recuperação iniciada em 2013, e com uma trajectória de crescimento mais acentuada a partir de 2016. O nível de desemprego, o défice orçamental, as exportações, o turismo, a confiança dos consumidores situam-se nos níveis mais favoráveis da última década. A melhoria do ‘rating’ pela S&P no último mês, que vem atribuir o grau de investimento à República Portuguesa e alargar a base de investidores potenciais em ativos portugueses, é confirmação deste sentimento positivo.

Os mercados financeiros têm reflectido esse sentimento, com os principais índices bolsistas a registar ganhos elevados em 2017. Com o resultado das eleições em França e a dissipação das dúvidas sobre o futuro do Euro alteraram-se os fluxos de investimento, com a Europa a ganhar peso relativo face aos Estados Unidos.  A Euronext beneficia deste aumento de volumes de transacção e a Euronext Lisbon sai também beneficiada, enquanto parte integrante duma plataforma de negociação comum pan-europeia, num enquadramento em que 85% dos investidores no mercado português são internacionais.

Na sequência do Programa de Assistência Económica e Financeira,  a economia portuguesa mudou substancialmente, provando uma notável capacidade de adaptação. Os bens transaccionáveis aumentaram, as empresas reorientaram-se para novos mercados, novos métodos e novos produtos, de forma transversal em todos os sectores, incluindo mesmo os mais tradicionais. É uma economia diferente, com mais empresas de pequenas e média dimensão viradas para o exterior, com ambição e novas ideias. No nosso contacto com empresas e agentes do mercado, o que ressalta é que muitas destas empresas já se deparam com a oportunidade de aumento da capacidade produtiva e se preparam para iniciar uma nova fase de investimentos.  Face aos níveis elevados de endividamento da economia portuguesa, a consideração de soluções alternativas ao tradicional financiamento bancário é um imperativo partilhado pela maior parte dos agentes económicos.  

É neste contexto que o Mercado de Capitais, e a Euronext em particular, têm um papel determinante. Têm surgido, nos últimos anos, novas alternativas para a capitalização das empresas, nomeadamente na sua fase inicial ou em processos de reestruturação: é o caso do Venture Capital ou do Private Equity.  No entanto, pela sua transparência, liquidez e visibilidade, o Mercado de Capitais apresenta características distintivas e geradoras de muito valor para emissores e investidores.  A materialização desse valor exige, todavia, mecanismos de acessos simples, ágeis e eficientes. No Índice de Competitividade Global do Fórum Económico Mundial, apresentado no passado mês, Portugal subiu 4 lugares para a posição nº 42 (entre 137 países). No entanto, entre os indicadores que pesam mais negativamente para a nossa competitividade encontra-se a eficácia do sistema de resolução de litígios (121ª posição) e a regulação do mercado de capitais (113ª). Ou seja, temos ainda bastante trabalho pela frente nest matéria. Nesse sentido, a colaboração com as várias entidades do ecossistema, entre a as quais AEM, a APFIPP, a CMVM e as entidades governamentais, surge como prioridade permanente. Apenas trabalhando em conjunto, será possível criar um enquadramento eficaz que remova barreiras e crie as condições para um acesso eficiente, previsível e transparente das empresas ao mercado de capitais .

Apoiar novas empresas no seu acesso ao Mercado de Capitais, explicando os requisitos e capacitando-as para fazer esse caminho é o objectivo do ‘FamilyShare’ e ‘TechShare’, que iniciaram em Setembro novas edições. Realizar este exercício de capacitação e conhecer as diversas ferramentas que o Mercado de Capitais disponibiliza é uma verdadeira valorização das competências da empresa e como tal, continuará a ser uma prioridade da Euronext no apoio à economia.

Desenvolver o mercado de capitais passa igualmente pela criação de novos instrumentos, de que os Certificados de Curto Prazo e as Sociedades de Investimento Mobiliário para o Fomento da Economia são exemplos, e que são resultado directo da nossa colaboração no Programa de Missão para a Capitalização das Empresas.

Em resumo, devemos reconhecer que o momento actual é positivo e as perspectivas de desenvolvimento futuro encorajadoras. Compete-nos aproveitar este enquadramento e continuar a contribuir para o adequado funcionamento e desenvolvimento do Mercado de Capitais. Na certeza de que que a Bolsa é uma verdadeira alternativa para a capitalização das empresas, a  Euronext continuará a realizar a sua missão: ser a plataforma para o financiamento da economia real!

Paulo Rodrigues da Silva
Presidente do Conselho de Administração da Euronext em Portugal